A Aeromoça Poderosa
(Alguém sabe onde encontrá-la?)
Marcio Seixas
Há 7 ou 8 anos, eu voltava de Fortaleza com minha família onde fui passar o carnaval. O BOEING 737 400 da TAM lotado de passageiros acelerou suas turbinas, soltou os freios e avançou com seu rugido fascinante pela pista.
No exato momento em que imaginei o avião erguendo o bico pra sair do chão, ouvi um silvo descendente, rápido, angustiante, indicando que os motores haviam sido “cortados”.
Nossos corpos foram arremessados para frente pela ação das rodas travadas que quicavam na pista dando a impressão de que passavam por muitos quebra-molas próximos um do outro. Bagageiros se abriram. Objetos começaram a cair. Em meio ao barulho assustador ouviu-se o estalo seco do microfone sendo ligado.
Uma voz feminina enérgica ordenou: “SENHORES PASSAGEIROS, PERMANEÇAM EM SUAS POLTRONAS COM OS CINTOS AFIVELADOS!!!.”
Não era uma instrução, era um comando de voz da aeromoça, numa demonstração inequívoca de autoridade, de poder. Que paradoxo; uma voz feminina dominou cerca de 300 pessoas com apenas 9 palavras...
O medo geral era latente.
Sentado nas últimas poltronas, pude ver que todos se entreolhavam, mas não diziam palavra. O único ruído, baixo, no ambiente, era o lento girar das turbinas impulsionando devagarinho o gigante de volta à cabeceira da pista.
Novo estalo de alto falantes ligados, desta vez do piloto, comunicando com voz serena que os computadores de bordo haviam detectado uma anomalia na aeronave, abortando a decolagem. Finalizou dizendo que aguardava instruções da equipe de terra para reiniciar os procedimentos.
Meu coração parecia pulsar nas têmporas. Vendo a excitação dos meus gêmeos adolescentes Ivo e Pedro alheios à situação, senti vergonha do meu terror.
“Senhores passageiros, aqui fala o piloto X. Como nada foi encontrado que justificasse a interrupção da decolagem, vamos reiniciar os procedimentos. A Transbrasil agradece sua preferência. Esperamos vê-los em sua próxima viagem. Tenham todos um bom vôo.”
Manches empurrados, a aeronave dá um salto na extensa pista alçando vôo, suave como uma garça. O alivio se espalha nos movimentos descontraídos das pessoas soltando os cintos, conversando, se ajeitando.
No corredor belas moças em seus uniformes preparam os carrinhos para distribuição dos infames sanduíches.
Procurei nos rostos tranqüilos que nos serviam a dona da voz poderosa que dominou com uma única frase de poucas palavras, quase 300 pessoas.
Na chegada, fitei cada membro da tripulação que fica na saída do avião e não me ocorreu – como pude errar tanto? – perguntar quem era a dona da voz que me impressionara tanto.
Meses depois, quando nosso curso de locução mudava de sonho para realidade, pensei em estampar essa história com foto da aeromoça no nosso site.
Mas... e a aeromoça? Como descobri-la?
Seria nossa referência. Com lugar de destaque na página inicial deste site. Fui pesquisar na própria Transbrasil. Ninguém, rigorosamente ninguém na empresa se dispôs a pesquisar nos registros operacionais esse incidente. Tentei como último recurso, o aeroporto de Fortaleza. Inutilmente. Acabei por desistir. Mas a aeromoça sem nome, sem rosto, permanece como símbolo do curso LOCUCÃO E VOZ. Por nada neste mundo desisto do intento de um dia poder mostrar seu rosto neste site.
A ela nosso respeito. Nossa imensa admiração.